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Os três incêndios do TUCA

Vou falar aqui de três incêndios acontecidos no TUCA. Sei que em geral quando se pensa na destruição do  TUCA se pensa só no incêndio que se deu na noite de 22 de setembro de 1984. Sem dúvida, aquele incêndio foi o que mais marcou nossa memória, tal a altura das chamas de 20 e mais metros que iluminaram e assustaram todo o bairro das Perdizes. Mas há aspectos que nem todos conhecem. O mais importante é que, mesmo tendo acontecido sete anos depois da invasão da PUC,  no dia 22 de setembro de 1977, os três incêndios do TUCA se acham associados ao gesto desvairado  do Coronel Erasmo et caterva.  Não há como esquecer a operação militarmente planejada e executada das centenas de soldados, policiais  e militantes que foram ocupando as ruas adjacentes à Universidade não apenas para reprimir a manifestação estudantil de protesto que se dava na porta do TUCA,  mas tendo em mente cercar e punir a Universidade com um " cala a boca" que ela jamais pudesse esquecer.

O golpe saiu, porém pela culatra. Apenas acendeu a resistência da Universidade e é nesse contexto que se deve entender os três sucessivos incêndios que passo a descrever. O alvo dessas ações não eram seguramente as paredes de um prédio, mas sim seu significado e, mais ostensivamente, as pessoas que se expressavam através de várias linguagens naqueles espaços e locais.

Para mim o primeiro incêndio se deu na noite mesma da invasão. No momento em que centenas de agentes dispersavam a manifestação estudantil que se dava na porta do TUCA, um pequeno grupo de estudantes mulheres tentou fugir da sanha policial, entrando no TUCA. Como as portas dianteiras do mesmo estavam fechadas, elas, acuadas, tentaram escapar pelo corredor externo situado à direita do edifício.  Ao serem atingidas por bombas de gás ( só lacrimogêneas? ) suas vestes pegaram fogo e elas quase foram queimadas vivas devido aos tecidos inflamáveis de seus vestidos.. Eu, ao perceber que o corredor estava sendo o alvo da atenção de dois piquetes da PM, fiz-me passar por delegado de polícia e ordenei aos soldados que  conduzissem as feridas a  duas ambulâncias que já se achavam bem na frente do teatro. Eles obedeceram sem pestanejar. Isto salvou essas jovens da tortura no DOI-CODI, mas seus corpos  certamente guardam ainda  hoje as cicatrizes daquela ação covarde da PM.

O segundo incêndio não passou de uma tentativa por ter sido detectado em tempo. Em um dos camarins foram colocadas ou lançadas garrafas tipo coquetel molotov que ao explodirem deram início a um pequeno incêndio que se  não tivesse sido imediatamente percebido e dominado pelos próprios funcionários do TUCA teria causado um desastre de grandes proporções.

Pouco depois desse episodio que não foi divulgado deu-se o atentado terrorista que " deu certo". Era o dia do sétimo aniversário da grande invasão. Enquanto na rampa se comemorava a vitória da PUC, um grupo da extrema direita, provavelmente com elementos da própria Universidade, tramou e executou uma manobra bem mais profissional da qual resultou um terceiro incêndio nascido em vários focos simultâneos.  Dessa vez deu certo: tudo foi destruído. Quando os bombeiros permitiram nossa entrada no recinto, tirando o vestíbulo do prédio, não restava quase nada do que fora o TUCA. De pé só suas  paredes nuas enegrecidas pelo fogo! Da sala maior, do salão Beta e do Tuquinha nada restava exceto o cheiro insuportável das cinzas e nas paredes as marcas da violência arbitrária que pretendia deixar claro à Universidade - e talvez, mais ainda, à Igreja Católica e a Dom Paulo Evaristo Arns, nosso grão-Chanceler --  que o mais seguro era abandonar sua postura de resistência à ditadura militar. Este terceiro incêndio foi coisa de profissionais assistidos por conselheiros e experts interessados em deixar claro que mesmo após o fim formal da ditadura  seria aconselhável a Universidade e suas lideranças deixarem de lado o papel que ela passara desempenhar  no meio universitário brasileiro.

Mas talvez esteja o leitor se perguntando o que, afinal, o TUCA, uma casa de espetáculos, tinha  a ver com tudo isto?   Sem dúvida ele era famoso como um teatro universitário, mas era bem mais do que isso. Especialmente nos anos 70 ele se tornara um espaço político relevante em um país silenciado por uma ditadura com o fechamento do Congresso e dos partidos, dos movimentos populares e das associações de qualquer tipo, inclusive as universitárias.  Já nos anos 60, o teatro universitário brasileiro tivera ali uma de suas caixas de ressonância. No palco do TUCA, com o Programa "Terça no TUCA", se realizaram os primeiros debates políticos com direito à livre expressão. Lá levantaram a sua voz políticos, cientistas, educadores, cantores, artistas, literatos e  bispos que ousaram proclamar o  sonho que era de todos os brasileiros.

Foi em razão dessa sua trajetória de luta e coragem que o TUCA foi três vezes queimado. Mas foi por essas mesmas razões que ele se tornou um bem cultural e um patrimônio do Brasil Livre que não podia senão ser reduzido a cinzas pelos que  defendiam um " Brasil Grande", mas não toleravam um Brasil com  liberdade, justiça e solidariedade.

Prof. Dr. Edenio Valle
Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião