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D. Paulo Evaristo Arns: 91 anos.

 No próximo dia 14, D. Paulo Evaristo Arns completará mais um aniversário. Se seguirmos a tradição bíblica, que por meio dos números oferece um indicativo da ação de Deus – por exemplo, a Jerusalém Celeste é cercada por uma muralha tendo 12 portas e cada uma possuindo o nome das 12 tribos de Israel; é apoiada sobre 12 pilares e em cada pilar o nome dos 12 apóstolos (Ap 21, 12-14) −, os 91 anos de D. Paulo somam 10 (9+1), que podem ser associados aos dez mandamentos, como às dez bem-aventuranças (Cf. Mt 5, 1-12). No Evangelho de Mateus, as bem-aventuranças, discurso inaugural de Jesus, falam de um tempo de alegria e de felicidade para os filhos de Deus. Esta mesma alegria é apresentada também no Evangelho de João, por ocasião do primeiro sinal realizado pelo mestre de Nazaré, ao transformar água em vinho nas bodas de Canaã. Por conseguinte, podemos dizer que esse tempo especial da vida de D. Paulo é também um indicativo da alegria que proporciona a sua vida a todos aqueles que com ele conviveram e condividiram seu ministério episcopal.

Há exatamente um ano, tive a felicidade de poder comemorar a abertura desse ano de graça, ao estar presente na celebração eucarística que marcou seus noventa anos. Havia um pequeno número de convidados e eu, fui até lá, um pouco 'na cola' de um deles, Pe Bison. Havia dois cardeais, D. Odilo Pedro Scherer e D. Cláudio Hummes, alguns dos bispos auxiliares de D. Paulo, dentre os quais, D. Mauro Morelli e D. Angélico Sândalo Bernardino, e um bom número de padres ordenados por ele, dentre os quais D. Pedro Luís Stringhini. Mas, o que mais me chamou a atenção, foi o número considerável de religiosas e leigos, agora com idade já um pouco avançada, mas que marcaram não somente a história da cidade, como também a história do país. Numa rápida passagem de olho, pude perceber ali vários representantes da Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo, dentre os quais Dr. Hélio Bicudo e Margarida Genevois, como também Ivo Herzog, filho do jornalista judeu Vladimir Herzog, assassinado num quartel do DOPS, cuja memória o cardeal reverenciou por meio de um culto ecumênico, na Catedral da Sé em 1975. Além deles, estava presente o jornalista Ricardo Carvalho que, com a ajuda de D. Paulo nos anos de chumbo da ditadura, promoveu a primeira grande reportagem sobre presos políticos no país, ao contar a história do lavrador Aparecido Galdino Jacinto. Galdino foi o fundador do Exército da Salvação, formado por mais ou menos vinte pessoas que contestavam um projeto governamental de desapropriação rural. Arbitrariamente detido, foi alocado num hospital psiquiátrico e readquiriu a sua liberdade graças à intervenção de D. Paulo e ao furo jornalístico do 'Ricardão'.

A presença dos bispos auxiliares de D. Paulo indicava também um tempo onde a palavra colegialidade era não somente uma ideia emergindo do Concílio Vaticano II, mas uma realidade que marcou profundamente a pastoral profética da Arquidiocese de São Paulo. Durante toda a celebração, não pude conter as lágrimas diante do significado da pessoa de D. Paulo para mim e para tantos que consagraram sua vida à causa do Evangelho. Nele, eu reconhecia a Igreja que animou a minha caminhada vocacional e me mostrou a encarnação da Boa Nova de Jesus na vida do povo mais simples desta nossa cidade, vítima de profundas desigualdades. Os 91 anos de D. Paulo, transformados em 10, podem ainda ser modificados em 1 (1+0): sinal de unidade na diversidade e expressão máxima do espírito conciliar da colegialidade.


Pe Edelcio Ottaviani.
(Prof. do Departamento de Teologia Fundamental da PUCSP)