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UNIVERSIDADE E COMPROMISSO SOCIAL

O compromisso social constitui uma temática complexa e polêmica. Historicamente, ele foi atribuído à extensão (em certos casos, chamado setor de serviços). Em algumas interpretações, das elites e empresários dominantes, discute-se a responsabilidade social. Num âmbito mais consistente, ele compreende os três eixos definidores das IES – ensino, pesquisa e extensão. Ora entendido como compromisso para com a sociedade, a partir das universidades voltadas necessariamente ao desenvolvimento do modo de produção dominante, e, mais especificamente, aos objetivos do Mercado. Ora entendido como um compromisso com a democracia, o desenvolvimento sustentável, às classes subalternas, aos excluídos e pobres.

Na esfera do ensino, o compromisso se concretiza recuperando e ressignificando as teorias críticas, colaborando com as instituições dedicadas à educação popular, aplicando o "método Paulo Freire", incorporando as proposições da Doutrina Social da Igreja voltadas para a "opção preferencial pelos pobres", a ética e a justiça. Em livro que escrevi (Educação Popular: metamorfoses e veredas. São Paulo: Cortez, 2010), trago algumas reflexões sobre uma abordagem gerada pela UNESCO: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver junto, aprender a ser.

Na esfera da pesquisa, o compromisso pode ser compreendido revisitando e recolocando as idéias da pesquisa participante – autenticidade e compromisso, antidogmatismo, restituição sistemática, feedback para os intelectuais orgânicos, ritmo e equilíbrio de ação-reflexão, ciências modesta e técnicas dialogais. Em convergência com ela, e recortes próprios, a pesquisa-ação que faz parte de um projeto de ação social ou de resolução de problemas coletivos, contando com o apoio do movimento, da organização social, cultural, educacional, sindical ou política, nos quais ela está concentrada. E ela é interdisciplinar. Deve atender a um objetivo de conhecimento específico e a um objetivo prático. Redimensionar o necessário equilíbrio entre a pesquisa quantitativa e a qualitativa, competência e qualidade.

Na esfera da extensão, o compromisso social comparece na criação de núcleos, institutos, centros etc., mais ágeis e flexíveis. Estimula engajamentos profissionais (estágios, consultorias, assessorias) e participação, diretas e indiretas, oferecidas a comunidades, ONGs, movimentos sociais, igrejas, partidos políticos etc. Favorece a articulação com redes e fóruns em diversos âmbitos. Apóia comunidades, associações e segmentos populacionais inseridos na área de trabalho das pessoas envolvidas nas atividades de extensão. Uma experiência interessante foi a criação da UNITRABALHO, por solicitação de membros das Centrais Sindicais às universidades, que contou com a presença ativa da nossa Universidade.

Uma crítica recorrente é a falta de uma integração verdadeira entre os distintos níveis de ensino, que as reformas universitárias, em geral, não conseguem elaborar e conduzir. O ensino e a pesquisa devem manter padrões elevados de competência, seriedade e qualidade, sendo questionados sempre em função de sua relevância social.

Um ponto imperativo em todo este conjunto exige uma noção clara de ética. Sendo, também, uma questão pertinente para as universidades, ela traz convergências e divergências significativas. Dentre os pensadores que a analisaram, cito alguns elementos básicos: o ético transcende a moral; é a práxis – como ação e relação – para o outro como outro, como pessoa, como sagrado, como absoluto; ela é um dever-ser, requer uma tomada de posição em face da realidade; uma revisão radical da vida humana pessoal e coletiva; tem por medida a justiça social; requer um novo projeto societário, que reconheça e supere os outros como oprimidos, explorados, excluídos, e que eleve a consciência universal, aberta à solidariedade, à comunhão entre todos. No texto da Carta citada, a ética transdisciplinar recusa toda atitude que recusa o diálogo e a discussão, em todas as áreas. O saber compartilhado deverá conduzir a uma compreensão, baseada no respeito absoluto das diferenças entre os seres, unidos pela vida comum sobre uma única e mesma Terra. O reconhecimento da Terra como pátria é um dos imperativos da transdisciplinaridade.

Não se pode deixar de olhar para uma corrente, teórica e prática, presente e atuante, caracterizada como pós-modernismo e pós-modernidade. A meu ver, é preciso diferenciar entre modernismo e pós-modernismo, modernização e pós-modernização, modernidade e pós-modernidade. E concordar com aqueles que fazem críticas de vulto ao pós-modernismo, pois suas argumentações as conduzem para além do ponto em que acaba a política coerente.

Uma questão de fundo diz respeito às resistências e mesmo reações contrárias à nova visão de cultura, a uma ciência crítica, a estes meios de compromisso social. Elas advêm dos pais, cuja formação seguiu a estratégia da globalização hegemônica; dos estudantes preocupados com mobilidade social, status profissional, qualificações para o Mercado, e com dificuldades de sustentabilidade (necessidade de bolsas, crédito educativo etc.) que os leva à desistência e evasão das IES; dos professores, com impasses nos contratos de trabalho, na carreira universitária, na qualificação para mudar as diretrizes curriculares, em como concretizar a necessária integração entre ensino, pesquisa e extensão.

Luiz Eduardo W. Wanderley: ex-reitor da PUC-SP (1984-1988), professor titular no Departamento de Sociologia da PUC-SP; coordenador do Núcleo de Estudos Latino-Americanos, no Programa de Pós em Ciências Sociais.