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O tempo perfeito
A íntegra deste texto saiu no "Independent". Tradução de Paulo Migliacci
Hannah Duguid
 
"No Grande Silêncio", filme mudo de três horas sobre a vida em um mosteiro, vira sucesso de público na Europa
 


No alto dos Alpes franceses, as badaladas de um sino ecoam sombriamente sobre a neve. Figuras encapuzadas se movem rapidamente pelas vielas medievais, com suas capas flutuando ao vento.
Os únicos sons humanos que se ouvem no interior da Grande Chartreuse, um mosteiro do século 17, são o farfalhar das roupas e o ruído dos passos sobre o piso de pedra. As orações, silenciosas, são conduzidas em celas solitárias, aquecidas apenas por um pequeno fogareiro.
O mosteiro abriga uma ordem de monges cartuxos composta por religiosos ascéticos, quase todos os quais praticantes de votos de silêncio.

O cineasta alemão Philip Gröning viveu durante algum tempo entre os monges e filmou uma forma de vida que pouco mudou em mil anos.

O resultado, "Into Great Silence" [No Grande Silêncio, que sai em DVD no Reino Unido em junho, pela Soda Pictures] é um filme de 160 minutos, sem música ou narrativa e contendo apenas alguns minutos de diálogos e cânticos.

Quando estava negociando com os distribuidores de cinema a exibição de seu trabalho nas telas britânicas, Gröning foi informado de que não havia muito espaço para ele.

Era um filme bonito e original, mas as audiências não seriam capazes de encarar algo que requeria nível de disciplina não muito distante do praticado pelos monges de que a obra trata. Sem drama ou narrativa óbvia, assistir ao filme é quase uma meditação.

"Queria fazer um filme que se tornasse um mosteiro, em lugar de exibi-lo. Queria que a audiência experimentasse a sensação de que o tempo pára e de como isso afeta nosso estado de espírito", afirma o cineasta.

Os críticos admitiram seu tédio e deram ao trabalho, em média, duas estrelas.
Mas o distribuidor do filme no Reino Unido e cadeias de cinema passaram a ser procurados todos os dias por espectadores interessados em saber onde poderiam assistir ao filme sobre os monges.
Depois de Londres, a história se repetiu em Birmingham e Liverpool, e o trabalho está em exibição em cinemas comerciais na Itália, França e Alemanha.

"Não sei exatamente por que isso aconteceu", diz Gröning. "Minha esperança é que o filme leve os espectadores ao seu espaço interior. O mosteiro é um lugar no qual você encontra a si mesmo. Pessoas me contaram que, inesperadamente, começaram a chorar durante a exibição."
A paciência de Gröning com relação a esse projeto tem algo de divino. Ele pediu permissão para filmar no interior da Grande Chartreuse pela primeira vez em 1984. Só 19 anos mais tarde o prior-geral da ordem concordou -desde que Gröning não usasse iluminação artificial ou levasse um assistente com ele. O cineasta se instalou no mosteiro por seis meses.

A edição demorou dois anos e meio. Dentro do filme, a ordem dos eventos oferece uma narrativa sutil -a primavera irrompe sob a neve que se derrete, um novo monge é admitido à ordem, verduras são plantadas e um velho monge cego expira quando a neve volta a cair.
Gröning equilibra esse ciclo com momentos de observação aguçada: a luz cai sobre uma tigela de frutas, poeira dança suspensa na luz do sol. No céu, lá em cima, a trilha de um jato parece estar fazendo o sinal da cruz, em um lembrete de que uma forma de vida tão distante da nossa continua, enquanto assistimos.

Simples e comovente
Mais que qualquer coisa, o tema do filme é a maneira pela qual olhamos e a maneira pela qual, se nos derem tempo, somos capazes de ver de forma diferente.
É desses momentos de beleza encontrados no cotidiano e na simplicidade que Gröning mais se orgulha. "Eu não teria sido capaz de perceber a imagem daquela tigela de frutas quando primeiro cheguei ao mosteiro. Foi preciso esperar. Surgiu uma mudança, porque a minha percepção do momento presente me ajudou a ver mais. Meu nível de consciência se tornou diferente."

"Os monges não vivem de acordo com o nosso senso de tempo, e, assim que você compreende o fato, recebe seu tempo de volta no momento em que retorna ao presente." A sensação é demonstrada na maneira calma e abrangente pela qual os monges encaram suas tarefas diárias.

Os legumes são picados de forma precisa. Um jovem monge trata de um irmão idoso e doente com atenção que chega a comover. Nas vidas deles, existe uma contradição.
Em geral, os monges levam existências solitárias, salvo uma caminhada semanal na qual são encorajados a conversar. Mas, em sua solidão, existe profunda intimidade nas rotinas e rituais que compartilham, em sua fé -e na decisão que tomaram ao entrar para o mosteiro.

Gröning não entrevista os monges. Em lugar disso, eles encaram a câmera em close-up por alguns momentos, para que possamos saber quem são e imaginar por que estão lá. Para nos oferecer percepções sobre o que se passa no cérebro deles, citações bíblicas surgem na tela por breves momentos.

"Quem quer que não doe tudo que tiver não pode ser meu discípulo" e "Ó, Senhor, me seduziste e estou seduzido". A substância do texto explica a atitude essencial ao modo de vida cartuxo -a fé de que compartilham quanto a uma decisão que precisa ser completa e inabalável.
Gröning acredita que o cinema seja a mídia ideal para experimentar a sensação verdadeira de uma vida monástica. Ele diz que "o milagre do cinema é sua capacidade de transportar o espectador com ele. Em um filme que, em seu sentido mais profundo, tem por tema o tempo, o cinema se torna a mídia perfeita".
Para ele, era essencial que o filme fosse mudo. Assisti-lo talvez requeira paciência quase religiosa, mas é esse exatamente o objetivo. Como dizem os monges, "apenas em completo silêncio se pode começar a ouvir. Quando renunciamos à linguagem, começamos a ver".

A íntegra deste texto saiu no "Independent".Tradução de PAULO MIGLIACCI.

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