Uma Década De Pesquisa Coletiva

Dez anos! O Centro de Pesquisas Sociossemióticas acaba de fazer 10 anos. Não é muito. Porém, nessa breve duração, o núcleo criado, um pouco por acaso, em 1994, conseguiu, quase por si só, se transformar — ao menos do ponto de vista de seus fundadores e dos membros mais anciãos — numa verdadeira jovem pessoa (moral e coletiva) que tem agora, já, sua própria historia de vida, seu caráter (às vezes difícil, devido a um gosto afirmado pela autonomia) e, com certeza, seus projetos para um longo futuro.


O Centro nasceu de um sonho: fazer existir e animar no Brasil um espaço de reflexão não dogmática que permitisse à semiótica estrutural (ou “greimasiana”, se preferir) se desenvolver sem constrangimentos, não mediante a aplicação respeitosa de modelos importados, mas graças a uma confrontação aberta com a maior diversidade de discursos e de práticas relevantes no contexto da vida cultural, estética, jurídica, política do país. A direção do programa de estudos em Comunicação e Semiótica (COS) da PUC-SP apoiou essa iniciativa e deu ao Centro uma localização institucional, sem interferir na linha teórica escolhida.


No início, seis ateliers foram constituídos. Hoje, são 16! O Caderno de Discussão, no qual as contribuições do primeiro colóquio anual do Centro estavam reproduzidas, não passava de umas dezenas de páginas encadernadas precariamente. Em 2003, tinha-se tornado um livro de quase 500 páginas, com o devido ISSN e título cadastrado no CNPq. Agora com mais de setenta pesquisadores vindos de todas as regiões do Brasil, o Centro, na origem organizado à maneira de um clube (sem outro motivo que puras afinidades intelectuais), corria o risco de se metamorfosear num formigueiro hiper-produtivista!


Daí a necessidade de uma recentração dos trabalhos, em particular no plano editorial. Esta permitirá, a partir do presente ano, retomar (além da difusão dos trabalhos dos ateliers no sítio internet do CPS) a publicação de volumes temáticos cuidadosamente articulados, tal como Do inteligível ao sensível (1995), Semiótica, estesis, estética (1999) ou O gosto da gente, o gosto das coisas (1997 ; trad. ital., Turim, 2000), livros hoje considerados como clássicos da disciplina e frequentemente citados, inclusive fora do Brasil.


De fato, a dimensão internacional e interinstitucional se confirma como uma característica essencial do CPS. Como é de rigor na época atual, somente após dez anos de bom convívio e de colaboração frutífera foi oficialmente celebrado o casamento entre os parceiros. Tomou a forma da assinatura, em abril de 2004, de um convênio formal entre o COS (PUC-SP) e o « Centre d’étude de la vie politique française » (Paris, FNSP-CNRS). São estas as duas instituições que mais constantemente instigaram os responsáveis pelo Centro nos seus esforços quotidianos, enquanto que as agências especializadas no amparo à pesquisa (Capes, CNPq, Fapesp) sustentavam seu funcionamento e os intercâmbios entre equipes.


Além disso, colegas da USP (F.F.L.C.H.) assumiram a parceria na formação de semioticistas que agora pesquisam e ensinam em todo o país. Em contrapartida, um grande número de universidades (da USP à UNESP, da universidade católica de Pernambuco a de Pelotas, passando ainda por instituições em Londrina, Vitória ou Porto Alegre, entre outras) facilitam a participação de um ou outro membro particularmente ativo na animação, na organização, na produção ou na reflexão mesma do « clube ».


Todas as condições parecem, portanto, reunidas para outros dez anos de atividade! E no momento atual, em que a sociossemiótica (ou, mais amplamente, a semiótica geral) se volta rumo a problemáticas novas — o sensível, a estesia, a dinâmica da interação nas práticas —, as tarefas e os projetos não faltam… O convite está lançado.


Eric Landowski
Directeur de recherche no CNRS
Diretor do CPS


*Texto publicado originalmente em Galáxia – Revista Transdicsiplinar de Comunicação, Semiótica, Cultura. N. 8, novembro de 2004, São Paulo: Educ, Brasília: CNPq.