O Legado da Primeira Década

O Centro de Pesquisas Sociossemióticas (CPS) completou 10 anos de existência em 2004 reconhecido, internacionalmente, como um pólo de formação e de produção de conhecimento em Semiótica no Brasil. O CPS foi criado, em 19 de novembro de 1994, por iniciativa de pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (Programa de Estudos Pós-graduados em Comunicação e Semiótica), da Universidade de São Paulo – USP (Departamento de Letras e Lingüística) e do Centre d’Étude de la Vie Politique Française – CEVIPOF, vinculado a Fondation Nationale des Sciences Politiques (Paris). Com o CEVIPOF, o Centro mantém um acordo de cooperação internacional, através do qual vem se dando regularmente o intercâmbio entre pesquisadores pós-doutores e pós-graduandos dos dois países para desenvolvimento de pesquisas em conjunto, além da promoção de eventos e publicações em parceria. Com uma vocação interinstitucional, definida desde a sua criação, o CPS congrega hoje colaboradores de vários países – França, Itália e México, principalmente –, assim como pesquisadores/professores das mais diferentes áreas vinculados a universidades e instituições de pesquisa de várias regiões do Brasil.


Na primeira década foi dirigido por Ana Claudia de Oliveira (PUCSP:COS), Eric Landowski (CEVIPOF) e José Luiz Fiorin (USP: F.F.L.C.H.) e na segunda pelos dois primeiros. O CPS assumiu, desde a sua criação, duas grandes linhas de atuação: a pesquisa propriamente dita e a formação de pesquisadores. As pesquisas são desenvolvidas através de grupos de estudo, discussão e investigações denominados ateliers. Estes trabalham em torno de linhas temáticas, que são modificadas com novas proposições em função exclusiva dos interesses coletivos dos integrantes. A cada final de ano, em assembléia geral, as proposições novas e as de continuidade são definidas para o ano seguinte. As atividades de formação envolvem a promoção de ciclos de estudo, jornadas, seminários, conferências e cursos ministrados por especialistas do país e do exterior ou por membros do próprio CPS, realizados nos campi da PUCSP. Seja na formação, seja na pesquisa, todo o trabalho do CPS tem se pautado pela preocupação em apresentar e/ou desenvolver aparatos teórico-metodológicos capazes de analisar conteúdos e explicar o funcionamento, os modos de produção e apreensão da significação nos diferentes discursos e práticas sociais. Ao assumirem essa abordagem no estudo da televisão, do vídeo, do cinema, da pintura, da escultura, da música, da publicidade, dos games, entre outros objetos, os pesquisadores do CPS vêm dando uma importante colaboração para a consolidação da semiótica como uma epistemologia da comunicação, do social e da arte.


Ao mesmo tempo em que atua como esse polo irradiador do conhecimento em semiótica, o CPS também tem funcionado como um espaço de referência no desenvolvimento de pesquisas orientadas pelos mais recentes avanços da disciplina. O CPS é hoje, por exemplo, o principal abrigo interinstitucional, no Brasil, das discussões provocadas pela incorporação, a partir da publicação do livro Da Imperfeição, das dimensões estésica e estética à teoria da significação. A primeira consequência metodológica de tal proposta é o desprendimento da semiótica de um corpus textual de referência (textos stricto sensu) e sua consequente preocupação em descrever um sentido que emerge das próprias experiências sensíveis do sujeito – um sentido que se dá em ato, seja nas experiências individuais, seja nas práticas sociais cotidianas, nas quais estão necessariamente envolvidos componentes afetivos e sensoriais. A tentativa de compreender uma espécie de “sintaxe” das operações sensíveis tem levado a semiótica a se preocupar, por exemplo, com a descrição de um regime de sentido da ordem do contato, que se dá tão somente na copresença em ato dos actantes sujeito e objeto, numa interação significativa em si mesma. Nesse trabalho de descrição, parte dos estudos semióticos, desenvolvidos hoje no CPS, têm se desdobrado naturalmente em investigações sobre a corporeidade e a materialidade mesma do mundo como elementos significantes. Através de uma semiótica que se apresenta, agora, mais como uma prática reflexiva que como um método, o que tais pesquisas buscam entender é o modo como a presença mesma das coisas faz sentido: um sentido entretecido naquilo que os nossos sentidos por si sós (o tato, em particular) nos permitem apreender.


Os resultados de todas as pesquisas em desenvolvimento no CPS vem sendo divulgados regularmente, desde 1995, por meio do Caderno de Discussão do Centro de Pesquisas Sociossemióticas, uma publicação que reúne os textos elaborados, ao longo do ano, pelos grupos de trabalho (ateliers) em funcionamento. Com o resultado das pesquisas já concluídas, e através das suas parcerias interinstitucionais, o CPS editou, nos seus 10 anos de funcionamento, seis livros. São eles: 1) Semiótica, estesia, estética.(1999). E. Landowski, R. Dorra, A. C. de Oliveira (eds.), São Paulo-Puebla, UAP-EDUC; 2) Imagens técnicas (1998). A. C. Oliveira e Y. Fechine (eds.), São Paulo, Hacker editores; 3) Semiótica da arte. Teorizações, análises e ensino (1998). A. C. de Oliveira e Y. Fechine (eds.), São Paulo, Hacker editores; 4) Visualidade, urbanidade, intertextualidade (1998). A. C. Oliveira e Y. Fechine (eds.), São Paulo, Hacker Editores; 5) O gosto da gente, o gosto das coisas. Uma abordagem semiótica (1997). E. Landowski e J. L. Fiorin, São Paulo, Educ; 6) Do inteligível ao sensível. Em torno da obra de A. J. Greimas (1995). A. C. de Oliveira e E. Landowski, São Paulo, Educ. Destaca-se, entre os títulos, O gosto da gente, o gosto das coisas, que já mereceu uma edição italiana publicada pela editora Turim e um número de Nouveaux Actes Sémiotiques (Unilin). O CPS também é responsável pela publicação dos Documentos de Estudo do Centro de Pesquisas Sociossemióticas, em sua sexta edição, por meio dos quais tem difundido, em língua portuguesa, textos de base para quem pretende trabalhar com a semiótica francesa.


Além das pesquisas desenvolvidas nos ateliers, o CPS tem acolhido, nesses 10 anos de funcionamento, dezenas de pesquisas de mestrado e doutorado. Concomitantemente ao trabalho que realizam nos ateliers, esses pós-graduandos encontram no centro um espaço privilegiado de interlocução com os pesquisadores seniors que, independente de orientarem formalmente suas pesquisas, colaboram com elas por meio da leitura de textos ou da sua discussão durante as apresentação nos eventos do CPS, notadamente no seu colóquio anual. Entre seus pesquisadores seniors, encontram-se professores titulares da: 1) USP:FFLCH, a exemplo de Diana Luz Pessoa de Barros, Luiz Tatit e José Luiz Fiorin, que também já dirigiu o CPS; 2) da PUCSP:COS, a exemplo de Ana Claudia de Oliveira; 3) da Universidade Federal Fluminense (UFF:PPGL), a exemplo de Lucia Teixeira; 4) do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS, Paris):Fondation Nationale des Sciences Politiques (CEVIPOF), a exemplo de Eric Landowski. Entre seus colaboradores internacionais, destacam-se ainda: Andrea Semprini (Un. de Lille, Fr.), Francesco Marsciani (I.U.L.M., Milão), Gianfranco Marrone (Un. de Palermo e Bolonha),Giulia Ceriani (Instituto de Línguas Modernas, Milão), Jacques Geninasca (Universidade de Zurique), Juan Alonso (Universidade Paris VIII), Peter Fröhlicher (Universidade de Zurique) e Raúl Dorra (Universidade Autónoma de Puebla).


Yvana Fechine (UFPE)
Integrante do Comitê Científico do CPS
Pesquisadora desde 1995