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Os perigos do tabagismo

Prof. Dr. José Rosemberg

(in memórian )

O fumo do tabaco é altamente nocivo à saúde porque contém cerca de 7.000 substâncias tóxicas, das quais 4.720 bem identificadas. Em cada tragada os fumantes inalam milhares delas, que vão do pulmão, em poucos segundos, para o cérebro, circulação, coração e todos os demais redutos do organismo. Por isso, os fumantes correm maior risco de sofrer e morrer por mais de 50 doenças. Destas, destacam-se: infarto do coração, bronquite crônica e enfisema pulmonar, câncer do pulmão e outros cânceres como da boca, laringe, esôfago, estômago, pâncreas, rim e bexiga.

Portanto, no tabagista, a esperança de vida é encurtada. Atualmente morrem no mundo anualmente, 4 milhões de pessoas por doenças tabaco-relacionadas, das quais 80 a 100 mil no Brasil.

O risco à saúde é diretamente proporcional ao número de cigarros fumados por dia (apenas um já é prejudicial) e à idade com que se começa a fumar. Os chamados cigarros “fracos” de “baixos teores”, charutos, cachimbos, fumos de mascar são, da mesma forma, prejudiciais.

As mulheres fumantes sofrem os mesmos riscos que os homens, acrescidos de outros peculiares: câncer de colo do útero, câncer da mama, menopausa precoce, osteoporose e enorme aumento da incidência de infarto do coração e derrames cerebrais, quando ao fumo associa-se o uso de anticoncepcionais orais.

Ao fumarem durante a gravidez, sofrem maior incidência de placenta prévia, seu descolamento precoce, aborto e prejuízo do desenvolvimento fetal. Há maior incidência de bebês com peso inferior ao esperado: morte súbita; defeitos congênitos, como lábio leporino, dedos grudados e estrabismo. O desenvolvimento mental da criança pode ser prejudicado, como é constatado na idade escolar.

Das substâncias nocivas do tabaco, destaca-se a nicotina, que é droga responsável pela dependência física. Mais de 95% dos que começam a fumar na adolescência, ao atingirem os 19 anos de idade já estão nicotino-dependentes. A dependência da nicotina é mais forte que a da cocaína e heroína, razão pela qual é tão difícil deixar de fumar.

Dos inúmeros tratamentos, os que têm valor científico, são os denominados “reposição da nicotina”. Ela é administrada por meio de adesivos aplicados à pele ou por goma de mascar. Durante o tratamento, que dura de 3 a 6 meses, não se pode fumar. Também recomenda-se um antidepressivo à base de bupropiona. Para se obter êxito, é essencial a decisão do tabagista de abandonar o tabaco. Devido às contra-indicações e efeitos colaterais, alguns sérios, exige-se uma estrita supervisão médica durante esse período. Os melhores resultados chegam a 30% de abandono do fumo. Porém, as recaídas são em número elevado. Portanto, o resultado final não é satisfatório.

Deixar de fumar prolonga a vida. Os ex-fumantes vivem mais que aqueles que continuam fumando. Quanto mais cedo se abandona o tabaco, mais tempo se vive.

Nos recintos onde se fuma, a atmosfera ambiente torna-se poluída pelas substâncias tóxicas do fumo. Estas substâncias, além de serem inaladas pelos próprios fumantes, também são inaladas por aqueles que não fumam, mas que convivem com esses tabagistas: são os chamados “fumantes passivos” que também acabam sofrendo prejuízos a saúde. Crianças que crescem em lares onde se fuma, notadamente os genitores e especialmente a mãe, têm maior incidência de bronquiolite, bronquite catarral, pneumonia, amigdalite, otite, sinusite e intensificação dos acessos asmáticos. Adultos fumantes passivos sofrem maior riscos de adoecer e morrer de câncer do pulmão e infarto do coração, em comparação com os não fumantes que não convivem com os tabagistas.

O tabagismo, pela elevada morbidade e mortalidade à que leva os fumantes e nocividade ao fumantes passivos, é considerado uma epidemia a exigir medidas preventivas. A Organização Mundial da Saúde criou uma coalizão internacional de Governos, implementando a “Convenção – Quadro Global Contra o Tabaco”, a qual aderiram 191 países, inclusive o Brasil. As medidas aprovadas são de natureza preventiva: integração do tabagismo nos programas nacionais de saúde pública; proibição total da propaganda dos produtos do tabaco; advertências ilustradas nos maços de cigarros; proibições de fumar em locais públicos – trabalho, reuniões, ensino, lazer, transportes coletivos e outros.  

Paralelamente, estão sendo desenvolvidos programas educativos antitabágicos, atingindo prioritariamente os jovens e todos os segmentos da população.

As leis mais eficazes, recentemente promulgadas no Brasil, são reflexos desse movimento mundial e apresentam pioneiramente – juntamente com o Canadá – advertências e ilustrações nos invólucros de cigarros.

O Programa Nacional de Prevenção do Tabagismo é implementado pela CONPREV, do Instituto Nacional do Câncer, do Ministério da Saúde, com a cooperação das Secretarias de Saúde dos Estados e já atingiu mais de 3800 municípios.

 

Prof. Dr. José Rosemberg era Professor Titular da Disciplina de Pneumologia do CCMB/PUCSP.

Publicado no jornal Cruzeiro do Sul - Sorocaba, em 28 de fevereiro de 2002, página A-2.

"Este artigo foi enviado para divulgação no site da CIPA pela Direção do  Centro
de Ciências Médicas e Biológicas da PUC/SP.
Sorocaba - SP".

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